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fragmento: do Lat. fragmentu
s. m.,
pedaço de um objecto quebrado ou rasgado; extracto ou resto de uma obra; parte de um todo; fracção; migalha; estilhaço.


Diariamente ela recolhe os seus, esforçando-se para colá-los com perfeição. Apesar de apenas cacos, tem grande esmero com eles. Cada pedaço contêm algum valor sentimental que nem mesmo com muito esforço ela conseguiria desfazer-se deles. São restos de uma obra de arte fabulosa, feita com muito carinho, cada detalhe fora feito com muita diligência até atingir o quase perfeito. Foram anos de muito trabalho, obra que nenhuma quantia monetária poderia adquirí-la mesmo ainda se os artistas que a fizeram estivessem vivos. "Sombra do futuro, sobra do passado...transformar a perda em nossa recompensa..."

Certo dia, cansada, sem entender porque as penas caem, as escamas renovam-se, porque as vozes insistem em dizê-la o que fazer, sem mesmo procurar uma resposta para o que não pode perguntar, após utilizar todos os tipos de cola, e materiais, envolveu-os em um jornal e colocou-os no cesto de lixo certa de que as faces já gastas de tanta manipulação não regenerariam-se mais. Naquele momento eles pareciam pertencer muito mais ao cesto de lixo prateado do que a qualquer parte, gaveta, móvel ou armário em que ela pudesse colocá-los. Por alguns segundos parou e indagava-se "como isso aconteceu?..."quem a quebrou?..."será que o tempo a deixou tão frágil que se quebrou sozinha e nem percebi?". Entretanto não havia respostas e o destino certo dos exuberandes e delicados fragmentos coloridos era o lixo. Tentou por tantas vezes remontar a obra mas ela não chegava nem perto da aparência original, e por vezes, suas mãos sangravam manipulando os delicados pedaços.
Aquela obra fora lindíssima outrora, exibida com orgulho e ganhava na casa espaço principal. Sentiu-se culpada por conseguir livrar-se deles com tanta facilidade, senão sua certeza de que aqueles pedaços não tinham mais utilidade. Ela estava exausta de conviver com fragmentos, de qualquer coisa que fosse e não conhecia alguém que pudesse recuperar a obra, nem mesmo ela que conhecia mínimos detalhes do todo.

Pensou em resgatá-los mas sabia que em algum momento deveria livrar-se deles. "Quem é que guarda cacos em suas coisas?" perguntava à sua ainda sã consciência. Os pedaços já não tinham mais um lugar definido em sua casa, não saberia onde abrigá-los, mesmo os pedaços que tinham alguma beleza por si. Sem falar no constrangimento já que certamente qualquer pessoa que a visitasse pensaria naquela maluquice.

Para sua surpresa o funcionário da limpeza não os levou com o restante ali deixado, certamente pensou que estavam ali por engano, uma vez que os estilhaços ainda fazem algum sentido, pelo menos para quem nunca viu a obra inteira.
"Seria aquilo algum tipo de advertência?" Mas não pensou muito sobre isso, pois decidiu definitivamente não prestar mais atenção em fenômenos considerados num dado tempo independentemente da sua evolução, mesmo que acreditasse em sincronia.
Ultimamente a vida não enviava sinais nada claros sobre qualquer coisa a ela. Mesmo assim os recolheu e jogou-os num canto da sala de jantar, na esperança de que qualquer dia desses saiba que destino dar ao que sobrou, respirando aliviada por ver que há no móvel um grande espaço para uma nova obra.

Imagem: Getty Images

15 comentários:

esse espaço é esperança.

18/08/2008 22:22  

Este comentário foi removido pelo autor.

19/08/2008 00:11  

Eu achei muito interessante seu texto.
Estou aqui pensando...
Depois que as coisas se quebram, não voltam mais à matéria original, ao status quo. "Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia".
Coisas fragmentadas são problemas filosóficos! Se juntarmos e colarmos os cacos, será possível viver com a imperfeição da forma?
É suportável?
E se deixarmos o lixeiro levar, teremos a coragem de ocupar o espaço antes ocupado? Teremos coragem para deixar as coisas irem?
Teremos espaço para o novo?
E se houver espaço, vamos desejar o novo?
Um coração, por exemplo, nem sempre a gente tem tempo pra juntar e seguir.
" A alma sem juntar os cacos, segue em frente.
O corpo segue inteiro em outra direção".
Mas continuar é preciso.
A confiança que quebra, leva anos para ser restaurada. Às vezes nunca é.
A cara que a gente "quebra", muitas vezes se reparte novamente, não raro, no mesmo erro.
As promessas que se quebram, viram decepção.
As correntes que a gente quebra, interrupção.
As esquinas que a gente quebra, são novos caminhos.
Paradigmas quebrados são novas respostas.

De uma certa forma, tudo é fragmento.
Verdades são fragmentos.
Nós, seres humanos, somos compostos por fragmentos de estrelas. Tem poeira cósmica no tecido eptelial. E pode haver célula humana no rabo de algum cometa!
A antimatéira destrói e contrói ao mesmo tempo, porém, o que ela deixa em cacos, aparece sob outra forma, para existir.
Marx dizia que tudo o que nasce traz em si o germe da destruição.
Acho que são coisas com as quais a gente precisa conviver: as transformações, o velho indo embora e o novo surgindo no horizonte, sabendo que cada coisa no universo ocupa seu devido lugar pelo tempo necessário, e que o Amor, por ser lei, integra e une tudo numa coisa só.

O passado é um pedaço da vida, mas o presente é integral!

E isso tudo, nossa Flor, é uma arte!

Veja quando puder um filme estranhíssimo chamado "A Fonte da Vida!" É uma "viagem", mas pensei nele lendo seu post.

Gostei muito mesmo desse post!
Sopro de Eves, moça!

19/08/2008 00:14  

Dani,
Sempre, né!!! Precisamos mesmo.

***********

Estrelinha querida,
Como sempre me faz pensar ainda mais...ai kct, minha cabeça já está em chamas!

Mas você me fez pensar em algo que antes não havia pensado, o que se quebra nem sempre se regenera mas vira algo novo...
Existem coisas que se quebram e tornam-se esperança, outras somente lembrança (uhuuuu, rimou!!...vou até ensaiar um poema..hohoho!!!)

Adorei isso "A antimatéira destrói e contrói ao mesmo tempo, porém, o que ela deixa em cacos, aparece sob outra forma, para existir.".

Vou pensar mais. Já falei que hoje estou vomitando tudo, preciso cuidar de minha mente sagaz e dos dedos vorazes.

bjs

19/08/2008 00:24  

Falando um pouquinho da Giuliana
Filha,
Neta,
Bisneta,
Sobrinha,
nosso "Bebê"

G I U L I A N A

Ela nasceu em 10/12/1997, uma criança muito especial! Ela foi emprestada para esse mundo para dar-nos um ensinamento de vida, com muita dedicação ao próximo, e como viver sempre com um sorriso nos lábios e alegria com a vida, mas tivemos que restituí-la com muita dor no coração.

Ela deixou em nossos corações uma chama de amor e dedicação que jamais se apagará e que vai nos servir de consolo e aceitação na nossa grande dor dessa tão inesperada separação.

A Giuliana foi tão fora de série, mesmo indo antes da idade para repousar no colinho de Deus. Ela agradou tanto a Deus, e Ele a transferiu de nosso convívio para toda corte no céu.

Nós ficamos.... Ela se foi, em 02/04/1998, com apenas 4 meses, no entanto nossos olhos estarão fixos no céu para contá-la entre os astros do firmamento...

"Só morre quem não deixa saudade!"

Um ano depois "Papai do Céu" me abençou novamente com uma outra filha: Larissa, que não subsistituiu a Giu, no entanto trouxe a alegria (pois esse é o significado do nome dela) e trouxe também consigo a singeleza do entendimento, meiguisse, a simpática e o carisma. Hoje digo que sou muito privilegiada pois fui presenteada por um "anjo" e uma filha.
A perda de um filho implica num tipo muito particular de luto, pois solicita adaptações tanto sob os aspectos individuais de cada um.

Quando perdemos um filho perdemos nossa perspectiva de futuro pois é nele que garantimos a possibilidade de realizar todos os sonhos e projetos que não conseguimos em nossas próprias vidas. Um filho não é apenas uma extensão biológica de seus pais, mas também psicológica, por isso temos a sensação que perdemos um pedaço de nós.

O luto por um filho é marcado por muita culpa e revolta, e por algum tempo chegamos a "brigar" com Deus, por não conseguir entender (aceitar) o porque de estar vivendo uma dor tão intensa.
As reações ligadas à perda de um filho dependem de alguns fatores como: a idade do seu filho: não existe uma idade pior, mas em cada etapa da vida existem fatores que dificultam a elaboração da perda; as circunstâncias da perda: o que aconteceu, como aconteceu, as causas da perda.

Só você sabe o que esta perda representou para você, portanto respeite-a. Se você entender o seu ritmo e seus limites para enfrentar a adaptação a esta perda, você irá lentamente se organizando diante deste sofrimento. Esta dor é para sempre? De certa forma sim, porque um vínculo com um filho é único e para sempre, mesmo que a distância. O que acontece é que a ferida aberta passa aos poucos a cicatrizar-se, mas nunca se apagará.

Você irá se alimentar desta dor por muito tempo, mas aos poucos irá perceber-se divertindo-se, produzindo, trabalhando, enfim, vivendo novamente, mas não será a mesma pessoa de antes, pois esta experiência fará você rever uma série de valores, crenças e comportamentos.
Abraços

19/08/2008 11:14  

Fica à dúvida. Será que vale a pena remontar esses cacos?

19/08/2008 12:43  

Pois é Dani...como eu disse as mãos jea estnao sangrando de tanto manipulá-los. Mas, ainda bem que ela conseguiu deixar um belo espaço para uma linda e nova obra de arte!

bjs

19/08/2008 12:46  

Karen,
Esse texto me faz pensar em muita coisa.
O que vem agora é que estou um caco e cansada, muito cansada.
Bjs

19/08/2008 17:31  

PUTA QUE PARIU, Flor!
(que lindo! Duas expressões nada a ver juntas. Mas como disse Veríssimo nada substitui um bom puta que pariu!)
Texto maravilhoso!!! É o que eu quis dizer no "O próximo por do sol", só que não tive tamanha competência. Você foi na mosca! Esse seu texto vai ser enviado a alguém com certeza. Com os devidos créditos, claro!
Depois ainda vem a estrela e regaça tudo logo de vez - nessa hora, Verissimo diria que caberia um vai tomar no cú, mas meu comentário ficaria muito cheio de palavrões. Se bem que é bom se acostumar já que vem para cá preciso te revelar que não sou sempre uma boa menina, aliás, sou bem boquinha suja, rs.
Agora tchau. Preciso ler seu texto mais duas vezes pelo menos.

Um carinho.

20/08/2008 10:23  

Sheyla,
Espero que descanse bastante hã?


Elga,
Rssss, fico feliz assim vejo que não se assustará comigo tb, já que a minha não é nada limpa....hohohohoh

Olha, não preciso nem mandar os créditos, já que estamos todas com sentimentos meio parecido pode usar sem pudor..rsss. Se quiser, aproveita e manda para algumas pessoas q eu gostaria tb! hahhahahh

Eh, Estrelinha sempre arregaça mesmo..as vezes tenho q ler umas 2 vezes os comentarios dela..

bjs

20/08/2008 11:56  

gente, eu ia escrever um comentário. mas se o texto se bastava, se o comentário da mmichelle "vai tomar no cú", a elga concluiu, porra.
chega de palavrões, porque sobre isso a estrela tb já nos alertou num dos lindos posts.
beijos, só pra não desaparecer por completo.

ahh, pra dar notícia: tô quase conseguindo não afogar o notebook nas minhas lágrimas enquanto falo com meus amados no skype. tá DIFÍCIL, gente!

20/08/2008 23:18  

Paty,
Vc já se mudou neh? Ai, imagino mesmo a saudade.
Nossa, não fazia idía que este texto estava tão bom assim...rsss...como falei na casa de alguma não lembro de qual, talvez de todas, estamos em fases bem parecidas fica fácil se identificar.

Não chora não bonequinha! Saudade é um sentimento que a gente se acostuma (fazer o que né?)

bjs

21/08/2008 10:58  

Karen,

Quando juntamos cacos, não precisamos, necessariamente, remontá-los na mesma peça. Aliás, isso nunca dá certo. Podemos transformá-los em outras coisas: um caleidoscópio, um mosaico, um vitral... e, às vezes, eles ficam ainda mais belos que a peça original.

Pense nisso!

beijos

Maria Carla

21/08/2008 14:47  

Maria Carla,
Não tinha pensado por este ponto de vista...Mas me pergunto então se tenho capacidade para criar alguma coisa com eles...vou investigar melhor!

bjs

21/08/2008 15:47  

esse texto, gosto tanto...

07/09/2008 12:53  

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